sexta-feira, 29 de agosto de 2008

As descontinuidades da interação face a face

Amiga do Bú, esse é pra você!

Bem... Por muito tempo se estudou a língua falada baseada na língua escrita. Alguns teóricos dizem que a escrita é perfeita e que devemos falar como escrevemos. Isso é uma utopia, minha gente. Vejamos só... Quando a gente escreve, a gente tem tempo pra pensar. Nós lemos o texto escrito, relemos, trelemos, corrigimos e assim vai. Mas vamos dar uma oportunidade para esses tais teóricos se explicarem um pouco, né?

1. Linguagem escrita X Linguagem falada

Escrita

· Planejada;

· Não-fragmentada;

· Completa;

· Elaborada;

· Predominância de frases complexas com subordinação abundante;

· Emprego freqüente de passivas.

Fala

· Não-planejada;

· Fragmentada;

· Incompleta;

· Pouco elaborada;

· Predominância de frases curtas, simples ou coordenadas;

· Pouco uso das passivas.

Ta... Já disseram muita coisa... Você concorda com isso? Você acha que a escrita pode ser comparada com a fala? Você acha que a fala é desorganizada? Que a escrita sempre vai ser linda e impecável? Se a resposta é sim, o que você está fazendo no curso de Letras? Se a resposta for não, eu gosto de você! Mas quem disse sim e quem disse não... Qualquer um pode ler até o fim.

Essas duas modalidades da linguagem (escrita e fala) podem se misturar, às vezes. Quando estamos num tribunal, ou numa palestra científica, ou num casamento (se você for o noivo ou noiva e estiver repetindo aquelas coisas chatas que o padre diz), nós usamos uma linguagem mais formal, mais certinha, pensada, planejada anteriormente, com mais tempo para organizar a idéia. Falamos como se tivéssemos ensaiado aquilo. E quando estamos no msn? Como escrevemos. Existem aquelas pessoas que escrevem tudo direitinho. Agora, quando estas fazem isso lentamente... Ah! A gente perde a paciência. Porque no Messenger nós temos que ser rápidos, isso acontece por causa da mensagem instantânea. Feito na hora, como uma conversa, como a fala.

Assim nós vemos que, simplesmente, nós não podemos dizer que uma modalidade é mais importante que a outra. Mas os gramáticos teimam em dizer que a língua escrita é superior à fala, pois possui uma organização, possui regras, possui uma gramática Felizmente alguns lingüistas têm defendido que a língua falada possui sim uma organização. O nosso grupo de pesquisa chama essa organização de Gramática Interacional, mas isso não é oficial... Autores importantes como Marcuschi, Koch e , se eu não me engano, Rodolfo Ilari, falam de uma gramática da fala. L. A. Marcuschi fala que apesar do aparente caos lingüístico, nós conseguimos adquirir conhecimento através da interação.

É justamente desse ‘caos lingüístico’ que vamos falar nesse texto. Mas antes de chegar nas famosas descontinuidades da interação face a face, vamos ver algumas características que nos deixarão contextualizados.

2.Características próprias da interação face a face

A conversação é um jogo. Um jogo coletivo onde cada passe é importante para seu desenvolvimento. Eis aí alguns deles:

  • A fala é localmente planejada, ou seja, ela é planejada ou replanejada a cada novo ‘lance do jogo’;
  • O texto falado é posto ‘a nu’ no processo de produção. Vai sendo construída em sua própria gênese;
  • Há descontinuidades freqüentes que são justificadas pelos fatores de ordem cognitivo-interativa;
  • A fala vai apresentar uma sintaxe própria, uma gramática interacional.

Enquanto que no texto escrito nós fazemos um rascunho anterior, depois uma revisão, depois uma correção para possuir o produto final; no texto falado nós temos o rascunho como produto final. Deu pra entender? Além do mais a interação se trata de uma produção conjunta. O locutor e o interlocutor co-produzem, co-negociam, co-argumentam.

Como é a interação (imediata) que importa, ocorrem pressões de ordem pragmática que acabam por sobrepor-se às exigências da sintaxe. Isso significa que o locutor, frequentemente, vê-se obrigado a “sacrificar” a sintaxe em favor das necessidades da interação, fato que se traduz pela presença, no texto falado, de falsos começos, anacolutos, orações truncadas, etc, bem como a recorrer com freqüência a inserções de vários tipos, as repetições e as paráfrases, com o intuito de garantir a compreensão de seus enunciados pelos parceiros. (KOCH, 2006)

Mas essas “descontinuidades” são, na verdade, “estratégias conversacionais” . Assemelham-se às máximas de Grice.

  • Quando percebemos que o outro já entendeu o que queríamos comunicar, a adição da fala se torna desnecessária;
  • Já quando percebemos que o ouvinte não entendeu, nós repetimos, mudamos o planejamento, inserimos uma explicação;
  • E quando percebemos que erramos em algum termo, nós nos interrompemos e nos corrigimos. Mas também pode ocorrer o fato de o ouvinte nos corrigir.

Essas características citadas acima são as descontinuidades da língua falada (é bom reforçar, amigos) que apontam a “aparente” desestruturação da língua falada.

2. As descontinuidades!!! Eba!!

As descontinuidades são divididas em dois grupos: processos de inserção e processos de reconstrução.

2.1. Processo de inserção

As inserções provocam certa pausa, uma suspensão temporária do tópico (assunto) em curso. Desempenham funções interativas como: explicar, ilustrar, fazer ressalvas, introduzir avaliações ou atitudes do locutor, etc.

Além delas serem realizadas pelo locutor (auto-condicionadas), elas podem ser também hetero-condicionadas. Acontece quando o interlocutor faz uma pergunta ou pede uma explicação ao locutor. Este é obrigado a responder, obedecendo ao princípio de relevância condicional.

Mas se essa inserção não tem nada a ver com o tópico em curso, deixando uma quebra no discurso, aí a chamamos de digressão. Alguns autores chamam isso de “afrouxamento” da coerência textual. Agora, quando a digressão vem introduzida por marcações (como: a propósito, por falar nisso, antes que eu me esqueça, desculpe interromper, mas... etc), o locutor revela que tem consciência de estar provocando uma ruptura no desenvolvimento tópico. Algumas vezes esse fenômeno é usado como descanso num assunto de difícil compreensão. E as digressões não só são iniciadas por marcadores como também são encerradas por estes: “voltando ao assunto”, “mas onde é que eu estava?” . Isso demonstra que essa digressão é realmente apenas um parêntese.

A reconstrução consiste na reelaboração da seqüência do discurso. Provoca também uma diminuição do ritmo da conversação com a volta de recursos já usados. Tem como função formular melhor ou reformular um segmento maior ou menor do texto já produzido. Serve para solucionar problemas detectados pelo locutor ou pelo interlocutor. São: correções ou reparos, repetições, parafraseamentos e adjunções.

A reconstrução consiste na reelaboração da seqüência do discurso. Provoca também uma diminuição do ritmo da conversação com a volta de recursos já usados. Tem como função formular melhor ou reformular um segmento maior ou menor do texto já produzido. Serve para solucionar problemas detectados pelo locutor ou pelo interlocutor. São: correções ou reparos, repetições, parafraseamentos e adjunções.



2.2 Processos de reconstrução

2.2.1 Correções

São cortes feitos para consertar o que não pode se apagar. Geralmente se interrompe o quanto antes o discurso para se apresentar a forma que considera a mais adequada.

Podem ser também hetero-condicionadas. O interlocutor mostra estranheza e sugere explicitamente a correção.

2.2.2 Adjunções

Ocorre quando o locutor percebe que deixou de acrescentar uma informação importante que irá facilitar a compreensão do discurso. Ou completa uma informação incompleta. Reaviva na mente do interlocutor algo que já foi dito anteriormente, dá ênfase a algum aspecto relevante para um bom entendimento do tópico.

2.2.3 Repetições e parafraseamentos

Fenômenos extremamente freqüentes no texto falado. Desempenham diversas funções.

Fazem parte dos processos de reconstrução e possuem as mesmas funções das correções e dos reparos. Sanam problemas detectados(pelo próprio locutor ou pelo interlocutor) em segmentos enunciados anteriormente: parafrasea-se o que foi dito, quando se vê que o outro não entendeu a mensagem. Repete-se o enunciado para não haver mal entendidos quando há ruídos externos ou distrações do parceiro.

Em sentido amplo, pode-se dizer que a repetição engloba desde a repetição ‘exata’, até aquela em que ocorrem variações maiores ou menores na forma e portanto, também a paráfrase. Sendo a repetição exata (isto é, a expressão da mesma idéia com as mesmas palavras e a mesma entonação) bastante rara, pode se incluir a maior parte das repetições entre os processos de reconstrução. (KOCH, 2006)







cabou.. agora é com você, amigo!



domingo, 18 de maio de 2008

Eu quero melzinho

Vivi está doente. Vomitou algo com cor de açaí e acabou de ir ao médico.
Eu também estive doente. Mas ninguém faz caso. Minha mãe mesmo falou: 'Ah, Camila. Tu sempre tá doente'. Meu namorado está com conjuntivite. Meu padrasto com uma érnia (ou seria hérnia?) na virilha. E assim a minha virose fica de ladinho. Nem pra trazer um melzinho pra mim...
O que mamãe fala é verdade (mas ela podia trazer melzinho). Eu sempre estou doente, é incrível.
Nesses últimos meses eu já tive até anemia. Fui no hospital tomar soro. Fiquei tonta na universidade. E assim vai. Pra mim, estar saudável é que é uma novidade. Tosse vem sempre. Mas mamãe podia trazer melzinho.
A minha querida e delicada avó sempre me diz que essas 'frescuras' vão acabar assim que eu casar. Se bem que ninguém da minha família me ajuda a casar, né? Já que espantam todos os meus pretendentes (Rodolfo, eu sei que você me ama e vai ficar comigo até..., né?). Todos falam que eu deveria ser mais doce, mais melosa, mais meiga, mais menininha feita de temperos e perfumada com flores. Concluindo... Se eles me dessem melzinho, tudo se resolveria!
E adianta o meu protesto? 'Camila é doida!', 'Camila é exagerada!'. Uhu! Vou ficar aqui tossindo, exercitando minha barriga (tive até cãibra). Desejo melhoras rápidas ao meu namorado para que ele me VEJA logo. Desejo melhoras a minha irmã que deve estar chorando no hospital agora (tadinha, vomitando açaí). Desejo melhoras ao meu padrasto e não, não quero ver a bendita bruzumba que se aloja na sua virilha, tio.
E mãe... Eu serei uma pessoa mais saudável e doce se a senhora me trouxer melzinho!
^^

quinta-feira, 13 de março de 2008

João Cabral de Melo Neto

Fim da Segunda Guerra Mundial. Início da Era Atômica com as explosões de Hiroxima e Nagasáqui. Cria-se a ONU. Mas logo após vem a Guerra Fria. Também em 1945, ocorre o fim da ditadura de Getúlio Vargas, início da redemocratização brasileira. Mas logo após há o golpe militar. Voltam as perseguições, os exílios...
Surge a geração de 45. Grupo de poetas que se dedicam a uma poesia equilibrada. Longe das "brincadeiras", ironias, sátiras, modernistas. Se preocupavam com o reestabelecimento da forma artística e bela. É aí que surge um dos mais importantes poetas da nossa literatura, não filiado esteticamente a nenhum grupo e aprofundador das experiências modernistas anteriores: João Cabral de Melo Neto.
João Cabral nasce em Janeiro de 1920 (não sei precisamente se seria no dia 6 ou 9). Primo de grandes intelectuais, Gilberto Freyre e Manuel Bandeira. Passa sua infância em engenhos de açúcar: primeiro o Poço de Aleixo em São Lourenço e depois fica no Pacoval e Dois irmãos em Moreno.
Com o início da Era Vargas e por complicações políticas com o presidente Getúlio, Luís Antônio, pai de João Cabral, foi obrigado a abandonar o engenho e partir para Recife. Em 1930, João Cabral, amante compulsivo de futebol, estudou no colégio Marista e foi campeão juvenil pelo Santa Cruz Futebol Clube (1935).
Aos 18 anos já começa a frequentar rodas literárias em cafés, onde conhece Murilo Mendes, no Rio de Janeiro. Este, apresenta o pernambucano a Carlos Drummond de Andrade, entre outros intelectuais.
O ano de 1942 é marcado pela publicação do primeiro livro de João Cabral: Pedra do Sono.Um livro influenciado pelos seus amigos Murilo e Carlos. Já em 45, publica O engenheiro, livro que define o rumo de sua obra.
Logo após prestou concurso para a carreira diplomática e serviu na Espanha, Inglaterra, Portugal, Marrocos, França Senegal.
No final a década de 60 é eleito para a Academia Brasileira de Letras na vaga de Assis Chateubriand. toma posse, em 69, da cadeira de número 6 e é recebido por José Américo.
João Cabral era atormentado por fortes dores de cabeça e descobriu que sofria de uma doença degenerativa incurável que faria sua visão desaparecer aos poucos. Logo então anunciou que iria parar de escrever. Morre em 1999, aos 79 anos, sem ver o seu time do coração (América) voltar a seus dias de glória.
Enfim. Quanto ao seu estilo de escrita os críticos chamam a Geração de 45 o grupo de artistas desligados da revolução artística de 22 e que recuperam certos valores parnasianos e simbolistas. São poetas não-catalogáveis. O que deixa mais fácil analisar cada autor isoladamente, pois a única coisa que os deixam próximos é o aspecto cronológico.
João Cabral , por sua vez, é objetivo e real. Podemos notar que se inspira no nordeste (sua região natal), na Espanha (onde encontra muitos pontos em comum com o nordeste) e com a arte plástica, tendo destaque o pintor Juan Miró!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A solução

Era a hora do almoço. Eduardo e Edja colocavam a mesa. Camila lia a 'superinteressante' no sofá da sala. Vitória na rede se deliciava com 'o guia do mochileiro das galáxias'. Lucas tocava violão e cantava desafinadamente, no quarto, a música da sua banda 'sunset'. André...? Ah, que pergunta...
- Crianças!!! Preparados para mais uma jornada gastronômica? - disse Eduardo com empolgação.
- Ai, amor. Foi tão rápido hoje, né? - disse Edja manhosa.
Geralmente a família almoça nos domingos às 2, 3 da tarde. Neste dia estavam a mesa de 12:00 em ponto! Camila é a última a chegar na cozinha. Eduardo, sentado na ponta da mesa fazia uma expressão metida. Edja, olhando com carinho a comida, fazia declarações de amor ao marido. Lucas cantava e batucava a mesa, na outra ponta. Vitória tirava do prato com nojo os pimentões, tomates e outras coisas não criançais. Camila olha pra mãe, dá uma piscadela e diz:
- Tio Dudu, eu tenho algo aqui que pode mudar as nossas vidas!!! - Camila segurava a revista e a balaçava freneticamente. Tinha lido uma reportagem sobre uns tais de ' freegans' (free + vegans). - Vamos nos tornar freegans!!! Eles reaproveitam a comida, não pagam aluguel, são felizes, etc.- Mostrou a página da reportagem. Tinha uma foto de uma mulher num latão de lixo recolhendo rosquinhas velhas.- Existe até uma comunidade freegan aqui no Brasil, a 'erva daninha'. Na revista fala que eles organizam um grande jantar todas as noites logo após a colheita de restos de feira livre.
Edja olhava assustada. Lucas nem ligava. Vitória concentrada na seleção de pimentão. Eduardo olhava fixo para a porta pensativo. - Pois, é, Edja... Aline Barros costuma usar tenores nas suas músicas para preencher... - falava Eduardo desprezando as feições de desgosto da enteada.
- Camila, quer a minha verdura? - perguntava Vitória à irmã desconsolada. Ninguém riu da brincadeira da coitada.
Passou-se o tempo. Discutiram diversos assuntos. Inclusive o desaparecimento do irmão André. Até que:
- Camila, deixe-me ver a revista. - Camila ri baixinho. O padrasto pega a revista, a coloca numa distancia de um braço para facilitar a visão falha. Ele pára. Respira fundo. Seus olhos se enchem de lágrimas. Ouve-se anjos cantando ao fundo. Uma esperança.
- Sim!!! Eis a solução dos nossos problemas!!!!!
Camila entra em desespero... Agora ela seria uma freegan de verdade. 'Como ele pode ter levado a sério', pensava abismada.
- Diga, querido. - disse Edja apaixonadamente.
- Vamos nos tornar freegans!!!!!
Lucas engasgou a comida: - Pai... André já deixou essa vida. E o senhor quer que nós sejamos isso também? Eu gosto de mulher, pai!!! Mulher!!!
- Calma, Lucas... Deixa papai terminar; - dizia Vitória com olhar de admiração.
- Camila, você teve uma ótima idéia! Edja, de agora em diante não vamos mais trabalhar. Moraremos num galpão abandonado. Irei revesti-lo de fibra de vidro, vai ficar show de bola! Teremos nossa própria horta e à noite iremos procurar comida nas latas de lixo! Não será o máximo?! - dizia Eduardo eufórico.
- É isso aí papai!!! Abaixo o capitalismo!!!!!
Eduardo e Vitória pulavam de felicidade. Edja gemia a cada garfada do almoço, como se fosse o último. Lucas chorava embaixo do cabelo e Camila não entendia nada.



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Para maiores informações sobre os freegans brasileiros:
http://ervadaninha.sarava.org/
http://ervadaninha.blogger.com.br/

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

08 de janeiro de 2008
É manhã. Férias. Saco de recesso. Eu sei que a partir do momento que eu pisar na universidade eu vou dizer: 'eu quero recesso'.
Muitas pessoas fazem bom uso desse tempo livre, elas dormem! Mas eu consigo dormir? Não!!! No meu quarto estão duas meninas de 9 anos de idade brincando com qualquer coisa que seja interessante para elas. Agora, neste exato momento, estão concentradas para conseguirem fazer um castelo de cartas de 'Uno'. Claro que após conseguirem elas tiram uma foto, derrubam o castelo e começam tudo outra vez. Eu só queria um pouco de silêncio. No quarto ao lado a minha mãe toca violão. No outr quarto de frente ao dos meus pais, meus irmãos tocam qualuqer coisa que faça barulho. E eu só quero um pouco de silêncio.
Todos estão de férias e todos aproveitam da melhor maneira (brincando, namorando, estudando) esse momento tão precioso de lazer. Eu tenho que começar a procurar outra maneira de descansar que não seja dormir nem comer. Aproveitar que ainda posso vagabundar. Não sou casada, não tenho filhos, nem emprego. Emprego.
Acordei, lavei o rosto, escovei os dentes. Fui pra mesa do café da manhã. Mamãe estava lá.
- Camila, você tem que começar a pensar num jeito de se tornar independente.
Eu penso nisso todo o tempo. Mas minha preguiça não permite encontrar meios para que essa grande realização pessoal possa um dia acontecer. Sempre sonhei em morar sozinha, ter o meu cantinho e não depender de homem nenhum. E o que eu fiz pra tudo isso poder ocorrer? Comi e dormi!
- Minha filha, você precisa trabalhar! Você já está com 19 anos e...
... E com 16 ela já estava trabalhando numa escola chamada IPEP e foi muito agradavel a sensação de ganhar o próprio dinheiro. Lembra que comprou uma calça jeans e um tênis com o primeiro salário. Faz mais de 5 anos que eu escuto isso... Mas essa foi a primeira vez que minha mãe veio conversar comigo sobre eu arranjar um emprego. Fantástico. Mas onde eu posso trabalhar? Trabalhar num shopping feito uma escrava? Não sei... Seria uma opção, né? Estou pensando muito nisso e vejo que realmente é necessario. Putz, claro, né, Camila?
Então... ^^ Quem queiser me contratar pra qualquer coisa, até pra varrer o chão de uma loja... Eu prometo que não vou dormir no trabalho!

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Elias entrou sussurrando:
_ Sofia, 'You know who' tá em casa?
_ Não, Elias. Vem jantar.
Elias se desfez dos instrumentos de treino e sentou ao lado de Sofia na mesa de jantar. Ambos pegaram pão, passaram manteiga e o molharam no café. Os dois se respeitavam muito e eram cúmplices em várias coisas. Tinham muito zelo um pelo outro e uma confiança de fazer inveja a qualquer irmão de sangue. Elias, esta noite, estava um pouco nervoso. Nem olhava direito pra Sofia, o que a fez ficar curiosa.
_ Elias, o que está acontecendo...?
Elias nem comia e olhava pros lados pra ver se chegava alguém. Eliseu estava logo ao lado, mas nem iria escutar algo, jogava alguma coisa e o som estava alto nos fones. Clarissa agora dormia de bruços no sofá. Sofia olhava pra Elias esperando alguma resposta. Elias finalmente olhou pra ela e disse:
_ Eu estou gostando de uma menina do balé.
Sofia, empolgada, se lançou pra frente do irmão.
_ Quem ?
Calma, Elias não faz balé. Quem faz é Sofia. E hoje ela tinha faltado. Por quê? Ah, preguiça. Sofia sempre faz isso. Deixa tudo por preguiça. Ela só não tem preguiça de comer.
_ Hum, Gabi.
_Quem é Gabi?- Sofia nunca foi de gravar nomes.
_Aquela baixinha, loirinha... Não.. agora ela tá com o cabelo vermelho. Usa óculos... Tão linda. Como eu faço pra pedir ela em namoro?
Eita, mas já? Menino apressado. Sofia começou a rir. Elias não entendia. Afinal, todos esperavam que esse dia chegasse. O dia que finalmente Elias encontraria uma menina para dar uns beijinhos.
_ Eita menino... Espere um pouco. Você pelo menos já teve alguma conversa com ela?
_ Não... Só a vi de longe e ela é linda. Estou apaixonado por ela. Você me ajuda? Sim, sim... Fale com ela, diga como eu sou.
Sofia estava gargalhando. Tão bonitinho o desespero do irmão. Se engasgou com o café e Elias, preocupado e sem graça foi ajudá-la dando uns tapinhas em suas costas.
_ Ai, Elias... Eu ajudo.
_ Obrigada, Sofia. - Elias beijava as mãos da irmã. Esta fazia cara de nojo.
_ Tá bom, Elias. Pára, eu detesto isso. Ei, já disse pra parar...
_ Eu amo você, minha irmã!
Sofia não iria no balé nem tão cedo. Era quarta-feira e sua aula agora seria apenas na segunda.

domingo, 1 de julho de 2007

Sofia já estava no quinto sono. O livro sobre seu peito.
_ Clarissa!!!!!!
Uma voz lá fora gritava euforicamente, freneticamente, frequentemente.
Sofia já estava no chão com uma mão na cabeça e outra no coração. O livro voou longe e bateu na porta. Respirou fundo. O irmão continuava a gritar feito louco . Sofia foi cambaleando até a sala e viu Clarissa dormindo no sofá. A tv ligada pro nada. Pegou as chaves de casa, foi até a varanda e jogou-as.
_ AAAi! Tem mira não? Ou voce queria mesmo acertar minha cabeça?
A falta de mira era veridica! Mas o prazer que Sofia sentiu ao ouvir a pancada na cabeça de Eliseu foi transcedental. Seu irmão (do meio) era insuportavelmente vaidoso, arrogante, preguiçoso, vagabundo... Quando em casa, Eliseu vivia com a camera fotografica na mão fazendo poses narcisistas. Quando fora não se sabia onde ele poderia estar. As vezes treinava pólo aquático, outras vezes treinava kung fu, quando não se juntava com a turma do le parkour ou ainda se escondia atras de um moro e devorava mais uma vítima (no outro dia a coitada da vez liga e Sofia tem que dizer: "olha... er... eu naõ sei de quem voce está falando..." . enquanto ele fazia os gestos de "não estou", ou "morri").
O coração ainda saltava pelo susto. Resolveu comer pra ver se conseguia se acalmar. Tinha pão e manteiga. Isso já bastava. Eliseu entrou cantando.
_ Cade "you know who"?- Ele perguntou enquanto ligava o computador. Eliseu fez um rastro de agua, estava pingando. Dessa vez ele foi no pólo. O "voce sabe quem" era o codinome da mãe de Sofia. Eliseu detestava-a.
_ Saiu com tio Jorge. Sofia passava manteiga no segundo pão.
Clarissa continuava a dormir. Suas pernas estavam em cima do sofá em forma de "v", a cabeça caida juntamente com as mãos.
Sofia abria o quarto pão.
_Clarissa!!!!!
Elias chegou. O irmão justo, protegido de Sofia. Dois anos mais novo que ela. Alto, magro, olhos verdes, cabelos negros e grossos. Simpático, doce, calmo. Devia ter chegado do kung fu, seu motivo de vida. Sonha em fazer Ed. Física e montar uma academia. Treina todos os dias para o campeonato estadual. Admirado por muitos, cheio de meninas no seu pé, mas ao contrario do irmão Eliseu, Elias é romantico e sonha com a mulher ideal. Sofia levantou-se de um pulo e com o pão na boca pegou as chaves que estavam no chão (Eliseu nunca as coloca no lugar certo) e jogou pela varanda com levesa.Voltou para a cozinha e colocou mais um lugar a mesa.

domingo, 6 de maio de 2007

Cap. 1

“Só preciso de silencio"

"...a operação 2.74 da polícia federal..."

- Clarissa, desliga essa porcaria de TV! Eu estou tentando terminar esse livro. - Sofia estava lendo Drácula, de Bram Stoker fazia uns seis meses, ou mais. Segundo ela, era um livro chato-empolgante, se não conseguisse concentração nunca terminaria de ler aquela serie de "diários".

- Ah, Sofia, eu estou assistindo...

Clarissa, comendo chocolate, recortava desenhos de uma revista infantil!

- puff... Murta, você esta sujando a cama e o chão com essas suas besteiras... Sai do meu quarto!

Murta, quer dizer, Clarissa, saiu do quarto gritando: "nosso quarto!!!, nosso!!!" Bateu a porta que novamente se abriu com o impacto! Esqueceu-se de desligar a tv.

Sofia joga o livro na cama, coça a cabeça, e vai até a TV para enfim desliga-la. Aproveita que está de pé e fecha a porta. Liga o ventilador, deita-se e se cobre com o edredom cor-de-rosa. Ajeita o travesseiro para que ela ficasse inclinada. Voltou os olhos para aquelas letras torturantes.

"... o conde, pálido, com um olhar tenebroso, diabólico, tomou Sra. Harker em seus braços e...!

BLEM BLEM BLEM BLEM!!!!

-Sofia, olha esse arranjo!!!

Seu padrasto, Jorge, acabara de escancarar a porta! Tocava violão e queria mostrar a sua nova composição. Já era rotina. Todos os dias Sofia se assustava com a entrada do seu padrasto cantando e tocando! Sofia podia estar dormindo, se trocando, estudando, dançando de frente ao espelho, comendo escondida, fazendo qualquer coisa, que Jorge, sempre alegre, entrava de repente para lhe mostrar um novo arranjo, uma nova música, ou só pra tocar, sem pedir nenhuma opinião!

- Tio Jorge, estou lendo! Para com esse troço irritante, por favor! Falou Sofia levantando o livro cobrindo-lhe o rosto.

- Ah, desculpa... - Disse Jorge num tom muito triste e frustrado.

Sofia já sabia o que ele sempre falava e o imitava com perfeição. Fazia uma voz grave, mexia os braços pra frente, pra trás e trazia as mãos à cabeça: "tsc! Ninguém me dá importância nessa casa!"

Voltou-se mais uma vez ao livrinho de 400 paginas.

- hum, Van Helsin se retirou... hum... Dr. Seward... Senhora, Senhora. - os seus dedos corriam pelas letras soníferas procurando onde tinha sido interrompida - ah, aqui.. "... tomou Sra. Harker em seus braços e...”. Que é mãe?

- Que é mãe uma ova, olha o respeito menina! Eu sou sua mãe, não uma amiguinha de escola. Ah é, você não freqüenta mais a escola, virou uma vagabunda, bla bla bla bla.

Sofia fingia ler enquanto sua mãe de 1.47m falava ao vento. A mãe tinha entrado, também de repente, no quarto. Ia sair com seu marido, pois este estava muito triste com a desvalorização de seus talentos. Abriu o guarda-roupa da filha. Sofia logo se alertou: "não, minhas roupas de novo não". Lançou um olhar de desprezo para a mãe.

- Sofia! Quem e que te sustenta? blá blá blá blá..

A filha rebelde, que só queria um minuto de silencio para se deliciar com aquele clássico do romantismo, olhava para a testa da mãe esperando-a terminar mais um velho discurso.

- Terminou? - perguntou Sofia com desdém.

- Maria Sofia!

-Mãe, não me chame de Maria!

- Vamos fazer o seguinte: eu não uso mais essas porcarias das suas roupas e você não usa mais nada meu!

- Certo! - Sofia ria de raiva. Sua mãe saiu vestida com o vestido predileto da filha, bateu a porta com tanta força que esta se abriu novamente.

De longe escutou: "vamos Jorge, não agüento mais essa casa".

Enfim... Silencio.